domingo, 29 de agosto de 2010

domingo, 29 de agosto de 2010
Tenho tanto sentimento
Que é frequente persuadir-me
De que sou sentimental,
Mas reconheço, ao medir-me,
Que tudo isso é pensamento,
Que não senti afinal.

Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada,
E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada.

Qual porém é a verdadeira
E qual errada, ninguém
Nos saberá explicar;
E vivemos de maneira
Que a vida que a gente tem
É a que tem que pensar.

Fernando Pessoa

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"Trago dentro do meu coração,
Como num cofre que se não pode fechar de cheio,
Todos os lugares onde estive,
Todos os portos a que cheguei,
Todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias,
Ou de tombadilhos, sonhando,
E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero.
Alvaro de Campos (Fernando Pessoa)

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OPIÁRIO - Alvaro de Campos (Fernando Pessoa)

É antes do ópio que a minh'alma é doente.
Sentir a vida convalesce e estiola
E eu vou buscar ao ópio que consola
Um Oriente ao oriente do Oriente.

Esta vida de bordo há-de matar-me.
São dias só de febre na cabeça
E, por mais que procure até que adoeça,
Já não encontro a mola pra adaptar-me.

Em paradoxo e incompetência astral
Eu vivo a vincos de ouro a minha vida,
Onda onde o pundonor é uma descida
E os próprios gozos gânglios do meu mal.

É por um mecanismo de desastres,
Uma engrenagem com volantes falsos,
Que passo entre visões de cadafalsos
Num jardim onde há flores no ar, sem hastes.

Vou cambaleando através do lavor
Duma vida-interior de renda e laca.
Tenho a impressão de ter em casa a faca
Com que foi degolado o Precursor.

Ando expiando um crime numa mata,
Que um avô meu cometeu por requinte.
Tenho os nervos na forca, vinte a vinte,
E caí no ópio como numa vala.

Ao toque adormecido da morfina
Perco-me em transparências latejantes
E numa noite cheia de brilhantes
Ergue-se a lua como a minha Sina.

Eu, que fui sempre um mau estudante, agora
Não faço mais que ver o navio ir
Pelo canal de Suez a conduzir
A minha vida, cânfora na aurora.

Perdi os dias que já aproveitara.
Trabalhei para ter só o cansaço
Que é hoje em mim uma espécie de braço
Que ao meu pescoço me sufoca e ampara.

E fui criança como toda a gente.
Nasci numa província portuguesa
E tenho conhecido gente inglesa
Que diz que eu sei inglês perfeitamente.

Gostava de ter poemas e novelas
Publicados por Plon e no Mercure,
Mas é impossível que esta vida dure.
Se nesta viagem nem houve procelas!

A vida a bordo é uma coisa triste,
Embora a gente se divirta às vezes.
Falo com alemães, suecos e ingleses
E a minha mágoa de viver persiste.

Eu acho que não vale a pena ter
Ido ao Oriente e visto a Índia e a China.
A terra é semelhante e pequenina
E há só uma maneira de viver.

Por isso eu tomo ópio. É um remédio.
Sou um convalescente do Momento.
Moro no rés-do-chão do pensamento
E ver passar a Vida faz-me tédio.

Fumo. Canso. Ah, uma terra aonde, enfim,
Muito a leste não fosse o oeste já!
Pra que fui visitar a Índia que há
Se não há Índia senão a alma em mim?

Sou desgraçado por meu morgadio.
Os ciganos roubaram minha Sorte.
Talvez nem mesmo encontre ao pé da morte
Um lugar que me abrigue do meu frio.

Eu fingi que estudei engenharia.
Vivi na Escócia. Visitei a Irlanda.
Meu coração é uma avozinha que anda
Pedindo esmola às portas da Alegria.

Não chegues a Port-Said, navio de ferro!
Volta à direita, nem eu sei para onde.
Passo os dias no smoking-room com o conde –
Um escroc francês, conde de fim de enterro.

Volto à Europa descontente, e em sortes
De vir a ser um poeta sonambólico.
Eu sou monárquico mas não católico
E gostava de ser as coisas fortes.

Gostava de ter crenças e dinheiro,
Ser vária gente insípida que vi.
Hoje, afinal, não sou senão, aqui,
Num navio qualquer um passageiro.

Não tenho personalidade alguma.
É mais notado que eu esse criado
De bordo que tem um belo modo alçado
De laird escocês há dias em jejum.

Não posso estar em parte alguma. A minha
Pátria é onde não estou. Sou doente e fraco.
O comissário de bordo é velhaco.
Viu-me co'a sueca... e o resto ele adivinha.

Um dia faço escândalo cá a bordo,
Só para dar que falar de mim aos mais.
Não posso com a vida, e acho fatais
As iras com que às vezes me debordo.

Levo o dia a fumar, a beber coisas,
Drogas americanas que entontecem,
E eu já tão bêbado sem nada! Dessem
Melhor cérebro aos meus nervos como rosas.

Escrevo estas linhas. Parece impossível
Que mesmo ao ter talento eu mal o sinta!
O facto é que esta vida é uma quinta
Onde se aborrece uma alma sensível.

Os ingleses são feitos pra existir.
Não há gente como esta pra estar feita
Com a Tranquilidade. A gente deita
Um vintém e sai um deles a sorrir.

Pertenço a um género de portugueses
Que depois de estar a Índia descoberta
Ficaram sem trabalho. A morte é certa.
Tenho pensado nisto muitas vezes.

Leve o diabo a vida e a gente tê-la!
Nem leio o livro à minha cabeceira.
Enoja-me o Oriente. É uma esteira
Que a gente enrola e deixa de ser bela.

Caio no ópio por força. Lá querer
Que eu leve a limpo uma vida destas
Não se pode exigir. Almas honestas
Com horas pra dormir e pra comer,

Que um raio as porta! E isto afina! é inveja.
Porque estes nervos são a minha morte.
Não haver um navio que me transporte
Para onde eu nada queira que o não veja!

Ora! Eu cansava-me do mesmo modo.
Qu'ria outro ópio mais forte pra ir de ali
Pra sonhos que dessem cabo de mim
E pregassem comigo nalgum lodo.

Febre! Se isto que tenho não é febre,
Não sei como é que se tem febre e sente.
O facto essencial é que estou doente.
Está corrida, amigos, esta lebre.

Veio a noite. Tocou já a primeira
Corneta, pra vestir para o jantar.
Vida social por cima! Isso! E marchar
Até que a gente saia pla coleira!

Porque isto acaba mal e há-de haver
(Olá!) sangue e um revólver lá pró fim
Deste desassossego que há em mim
E não há forma de se resolver.

E quem me olhar, há-de-me achar banal,
A mim e à minha vida... Ora! um rapaz...
O meu próprio monóculo me faz
Pertencer a um tipo universal.

Ah, quanta alma viverá, que ande metida
Assim como eu na Linha, e como eu mística!
Quantos sob a casaca característica
Não terão como eu o horror à vida?

Se ao menos eu por fora fosse tão
Interessante como sou por dentro!
Vou no Maelstrom, cada vez mais pró centro.
Não fazer nada é a minha perdição.

Um inútil. Mas é tão justo sê-lo!
Pudesse a gente desprezar os outros
E, ainda que cos cotovelos rotos,
Ser herói, doido, amaldiçoado ou belo!

Tenho vontade de levar as mãos
À boca e morder nelas fundo e a mal.
Era uma ocupação original
E distraía os outros, os tais sãos.

O absurdo, como uma flor da tal Índia
Que não vim encontrar na Índia, nasce
No meu cérebro farto de cansar-se.
A minha vida mude-a Deus ou finde-a...

Deixe-me estar aqui, nesta cadeira,
Até virem meter-me no caixão.
Nasci pra mandarim de condição,
Mas falta-me o sossego, o chá e a esteira.

Ah, que bom era ir daqui de caída
Prá cova por um alçapão de estouro!
A vida sabe-me a tabaco louro.
Nunca fiz mais do que fumar a vida.

E afinal o que quero é fé, é calma,
E não ter estas sensações confusas.
Deus que acabe com isto! Abra as eclusas –
E basta de comédias na minh'alma! 

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Poeta de Vênus: Socorre minha alma

Poeta de Vênus: Socorre minha alma: "Socorre minha alma Ela grita calada Está chorando abandonada! Socorre minha alma Ela sofre amarrada Está sozinha coitada! Por que ninguém ..."

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Poeta de Vênus: Mais uma conversa

“Sentimentos passageiros, fortemente presentes”.

Mesmo sozinho confinado em meus sonhos e pesadelos, ainda procuro respostas que me expliquem o significado dos meus passos.

Mas nem por isso, abandono minhas ânsias mundanas e meu desejo pela vida. A busca por compreensão, não sacrifica a razão de meus atos, e conseguinte a emocionante aventura urbana e noturna é parte de minha essência.

Não ouso negas algumas coisas, por exemplo: como poderia deixar de apreciar a beleza feminina, em todas as suas formas a mulher é bela, do choro ao riso, do olhar ao gemido, no caminhar ao bailar, do amor ao sexo, até o cheiro é bom, realmente mulher é sinônimo de beleza; pelo menos no meu dicionário é. Porém devo confessar: como falar sobre essas ninfas, sem citar os prazeres da carne; estes desejos transbordam, todavia não faz sentido caso não formos correspondidos. Assim sendo, as laminas da dor me encontram quando não sou correspondido. Isso é algo cruel, mas como vou desejar o que já tenho? A palavra desejo afinal, deve ter origem do querer algo fora de nosso alcance, algo que não temos. Pensando dessa forma, como desejar a mesma mulher várias vezes? Melhor esquecer por enquanto, não gosto muito de polêmicas, mas é algo pra se pensar.

Concluindo, mesmo sem saber o sentido real de todas as coisas, consigo entender de modo precário o que me faz sentir prazer, mesmo que seja um saber primitivo. Até que me convençam o contrário, meus passos são voltados para destruir a dor, em busca do prazer, mas claro com camisinha rsrsr...


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“Sentimentos passageiros, fortemente presentes”.
Mesmo sozinho confinado em meus sonhos e pesadelos, ainda procuro respostas que me expliquem o significado dos meus passos.
Mas nem por isso, abandono minhas ânsias mundanas e meu desejo pela vida. A busca por compreensão, não sacrifica a razão de meus atos, e conseguinte a emocionante aventura urbana e noturna é parte de minha essência.
Não ouso negas algumas coisas, por exemplo: como poderia deixar de apreciar a beleza feminina, em todas as suas formas a mulher é bela, do choro ao riso, do olhar ao gemido, no caminhar ao bailar, do amor ao sexo, até o cheiro é bom, realmente mulher é sinônimo de beleza; pelo menos no meu dicionário é. Porém devo confessar: como falar sobre essas ninfas, sem citar os prazeres da carne; estes desejos transbordam, todavia não faz sentido caso não formos correspondidos. Assim sendo, as laminas da dor me encontram quando não sou correspondido. Isso é algo cruel, mas como vou desejar o que já tenho? A palavra desejo afinal, deve ter origem do querer algo fora de nosso alcance, algo que não temos. Pensando dessa forma, como desejar a mesma mulher várias vezes? Melhor esquecer por enquanto, não gosto muito de polêmicas, mas é algo pra se pensar.
Concluindo, mesmo sem saber o sentido real de todas as coisas, consigo entender de modo precário o que me faz sentir prazer, mesmo que seja um saber primitivo. Até que me convençam o contrário, meus passos são voltados para destruir a dor, em busca do prazer, mas claro com camisinha rsrsr...




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A maior solidão é a do ser que não ama. A maior solidão é a dor do ser que se ausenta, que se defende, que se fecha, que se recusa a participar da vida humana.

A maior solidão é a do homem encerrado em si mesmo, no absoluto de si mesmo,
o que não dá a quem pede o que ele pode dar de amor, de amizade, de socorro.

O maior solitário é o que tem medo de amar, o que tem medo de ferir e ferir-se,
o ser casto da mulher, do amigo, do povo, do mundo. Esse queima como uma lâmpada triste, cujo reflexo entristece também tudo em torno. Ele é a angústia do mundo que o reflete. Ele é o que se recusa às verdadeiras fontes de emoção, as que são o patrimônio de todos, e, encerrado em seu duro privilégio, semeia pedras do alto de sua fria e desolada torre.

(Vinicius de Moraes)

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Igual

Tempo, faz muito tempo que não tenho noites diferente
Antes não em minhas noites... apenas não sabia a diferença
Não saberia do já começo de um dia
Que apenas deveria ser um “novo dia”
Acho que o autor de minha vida
Não me faz um novo dia
Pois meus dias eram apenas
lastimoso, mofino..
Um dia muito lúgubre
Como fosse apenas um dia “fúnebre”,
Estou esgotado, esfalfado...
Como se apenas estivesse sendo molestado
Você me diz que está exausta
Sinto muito por ambos estarmos
Talvez não seja apenas viver meu dia que seja um fardo
Talvez... eu deva fazer isso
Talvez não faça nada, apenas deixe de citar
Reclamando que sou lento. - Talvez eu queira todo esse adágio!
Nada por você muda
Não te muda e nada ver
Que pensar ver ou fazer
Noite? Apenas uma noite, dentre vi muitas.
Me diz que sou fajuto, insensato, mentiroso
Que tudo que a formalizado em mim
Nada é que apenas o teatro para enganações
Te cega com teus pensamentos insanos
Não suporta que te compares
Nada a ti é que apenas talvez o melhor que sabe
A influência te faz agir com tamanha demência
Falta-te a informação! Não para que compreendas o que te questiona
Apenas sentir o que talvez cega não veja
De sentidos fomos dotados
Provavelmente se faz melhor aquele que os sabe usar
Não se diz acreditar – Somente Visualizando
Confiar no sabor – Apenas degustando
Confiar a temperatura – Apenas se sentir
Se o som é bom – Só se ouvir
O perfume é bom – Me deixe sentir a essência
Tanto te vale os sentidos, todas citações
No geral, se for a ti – Vai saber!!
Quem melhor para te conhece se não você
Tanta ladainha, apenas sem sentir
Que te concluiu?
Apenas nada. Talvez o instinto, a vida
Seja,apenas isso
Egoísmo enquanto se procura o próprio bem estar
Por anos achei que era você quem ligava quando o telefone tocava
Quantos foram os emails sem conteúdos para meu alívio
Quantas foram as noites perdidas
E enquanto talvez você dormia, mantinha seu sonho
Até mesmo poderia sonhar, mas não! Apenas sonhos lúcidos
Um total pesadelo, o sono e o corpo cansado
Se alma for nosso ego
Nada a satisfaz
Apenas continuo, a procura da boa aparência
Quanto ao resto?
O que na verdade não há
Pois foi um dia desse, que...
Aprendi a gostar de você
Nossa, como sou egoísta
Me fazendo o papel...
Nada importa, se necessito
Me ponho a baixo de tudo
La fico, por lucros próprios
Pensamentos obscuros
Pesadelos, noites mal dormida
A falha nos sentidos
Enganado estou
Dera eu estar vivendo
Talvez agora seja minha hora
Meu semblante melhorou
Egoísta? Talvez um pouco.
- não ao fim da palavra, apenas...
 não te deixo intervir no que penso
Acho que cansei, de esperar.

Noites

A noite vem, rápida a outros e lenta por mim
Quanto lhe custa rever, re-viver tudo novamente.
Como um replay de uma vida de talvez 24 prováveis horas
Pouco tempo te contaria tudo da vida
Pois como esta noite, foi minha vida


:D

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Dois excertos de Ode
















































Dois excertos de Ode


I
Vem, Noite antiquíssima e idêntica,
Noite Rainha nascida destronada, 
Noite igual por dentro ao silêncio, Noite
Com as estrelas lentejoulas rápidas
No teu vestido franjado de Infinito.
Vem, vagamente,
Vem, levemente,
Vem sozinha, solene, com as mãos caídas
Ao teu lado, vem
E traz os montes longínquos para o pé das árvores próximas,
Funde num campo teu todos os campos que vejo,
Faze da montanha um bloco só do teu corpo,
Apaga-lhe todas as diferenças que de longe vejo,
Todas as estradas que a sobem,
Todas as várias árvores que a fazem verde-escuro ao longe.
Todas as casas brancas e com fumo entre as árvores,
E deixa só uma luz e outra luz e mais outra,
Na distância imprecisa e vagamente perturbadora,
Na distância subitamente impossível de percorrer.
Nossa Senhora
Das coisas impossíveis que procuramos em vão,
Dos sonhos que vêm ter conosco ao crepúsculo, à janela,
Dos propósitos que nos acariciam
Nos grandes terraços dos hotéis cosmopolitas
Ao som europeu das músicas e das vozes longe e perto, 
E que doem por sabermos que nunca os realizaremos...
Vem, e embala-nos,
Vem e afaga-nos.
Beija-nos silenciosamente na fronte,
Tão levemente na fronte que não saibamos que nos beijam
Senão por uma diferença na alma.
E um vago soluço partindo melodiosamente
Do antiquíssimo de nós
Onde têm raiz todas essas árvores de maravilha
Cujos frutos são os sonhos que afagamos e amamos
Porque os sabemos fora de relação com o que há na vida.
Vem soleníssima,
Soleníssima e cheia
De uma oculta vontade de soluçar,
Talvez porque a alma é grande e a vida pequena,
E todos os gestos não saem do nosso corpo
E só alcançamos onde o nosso braço chega,
E só vemos até onde chega o nosso olhar.
Vem, dolorosa,
Mater-Dolorosa das Angústias dos Tímidos,
Turris-Eburnea das Tristezas dos Desprezados,
Mão fresca sobre a testa em febre dos humildes,
Sabor de água sobre os lábios secos dos Cansados.
Vem, lá do fundo
Do horizonte lívido,
Vem e arranca-me
Do solo de angústia e de inutilidade
Onde vicejo.
Apanha-me do meu solo, malmequer esquecido,
Folha a folha lê em mim não sei que sina
E desfolha-me para teu agrado,
Para teu agrado silencioso e fresco.
Uma folha de mim lança para o Norte,
Onde estão as cidades de Hoje que eu tanto amei;
Outra folha de mim lança para o Sul,
Onde estão os mares que os Navegadores abriram;
Outra folha minha atira ao Ocidente,
Onde arde ao rubro tudo o que talvez seja o Futuro,
Que eu sem conhecer adoro;
E a outra, as outras, o resto de mim
Atira ao Oriente,
Ao Oriente donde vem tudo, o dia e a fé,
Ao Oriente pomposo e fanático e quente,
Ao Oriente excessivo que eu nunca verei,
Ao Oriente budista, bramânico, sintoísta,
Ao Oriente que tudo o que nós não temos,
Que tudo o que nós não somos,
Ao Oriente onde — quem sabe? — Cristo talvez ainda hoje viva,
Onde Deus talvez exista realmente e mandando tudo...
Vem sobre os mares,
Sobre os mares maiores,
Sobre os mares sem horizontes precisos,
Vem e passa a mão pelo dorso da fera,
E acalma-o misteriosamente,
ó domadora hipnótica das coisas que se agitam muito!
Vem, cuidadosa,
Vem, maternal,
Pé ante pé enfermeira antiquíssima, que te sentaste
À cabeceira dos deuses das fés já perdidas,
E que viste nascer Jeová e Júpiter,
E sorriste porque tudo te é falso é inútil.
Vem, Noite silenciosa e extática,
Vem envolver na noite manto branco
O meu coração...
Serenamente como uma brisa na tarde leve,
Tranqüilamente com um gesto materno afagando.
Com as estrelas luzindo nas tuas mãos
E a lua máscara misteriosa sobre a tua face.
Todos os sons soam de outra maneira
Quando tu vens.
Quando tu entras baixam todas as vozes,
Ninguém te vê entrar.
Ninguém sabe quando entraste,
Senão de repente, vendo que tudo se recolhe,
Que tudo perde as arestas e as cores,
E que no alto céu ainda claramente azul
Já crescente nítido, ou círculo branco, ou mera luz nova que vem.
A lua começa a ser real.
II
Ah o crepúsculo, o cair da noite, o acender das luzes nas grandes cidades
E a mão de mistério que abafa o bulício,
E o cansaço de tudo em nós que nos corrompe
Para uma sensação exata e precisa e ativa da Vida!
Cada rua é um canal de uma Veneza de tédios
E que misterioso o fundo unânime das ruas,
Das ruas ao cair da noite, ó Cesário Verde, ó Mestre,
Ó do "Sentimento de um Ocidental"!
Que inquietação profunda, que desejo de outras coisas,
Que nem são países, nem momentos, nem vidas,
Que desejo talvez de outros modos de estados de alma
Umedece interiormente o instante lento e longínquo!
Um horror sonâmbulo entre luzes que se acendem,
Um pavor terno e líquido, encostado às esquinas
Como um mendigo de sensações impossíveis
Que não sabe quem lhas possa dar ...
Quando eu morrer,
Quando me for, ignobilmente, como toda a gente,
Por aquele caminho cuja idéia se não pode encarar de frente,
Por aquela porta a que, se pudéssemos assomar, não assomaríamos
Para aquele porto que o capitão do Navio não conhece, 
Seja por esta hora condigna dos tédios que tive,
Por esta hora mística e espiritual e antiquíssima,
Por esta hora em que talvez, há muito mais tempo do que parece,
Platão sonhando viu a idéia de Deus
Esculpir corpo e existência nitidamente plausível. 
Dentro do seu pensamento exteriorizado como um campo.
Seja por esta hora que me leveis a enterrar,
Por esta hora que eu não sei como viver,
Em que não sei que sensações ter ou fingir que tenho,
Por esta hora cuja misericórdia é torturada e excessiva,
Cujas sombras vêm de qualquer outra coisa que não as coisas,
Cuja passagem não roça vestes no chão da Vida Sensível
Nem deixa perfume nos caminhos do Olhar.
Cruza as mãos sobre o joelho, ó companheira que eu não tenho nem quero ter.
Cruza as mãos sobre o joelho e olha-me em silêncio
A
esta hora em que eu não posso ver que tu me olhas,
Olha-me em silêncio e em segredo e pergunta a ti própria
— Tu que me conheces — quem eu sou ...
Álvaro de Campos, um dos heterônimos de
Fernando Pessoa
(1888-1935)

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